Fiquem agora com a segunda, e final, parte do texto sobre palíndromos do Grande Malba Tahan (Que Alá o tenha em sua Glória).
Os palindromistas já construíram, em nosso idioma, mais de sessenta frases palíndromas. Dizemos que a frase é palíndroma perfeita quando pode ser lida da direita para a esquerda sem transposição de letras. Citemos algumas frases palíndromas perfeitas: Omitiram o marítimo. Salta o atlas. Atiram a Marita. Assim é missa. Ana ama Oto; Oto ama Ana.
Na última, todas as palavras, que nela figuram, são palíndromas.
A frase palíndroma é dita quase perfeita quando a segunda leitura (da direita para a esquerda) exige mudança de acento, mas sem deslocar letra alguma. Dois exemplos: Ante o Etna. Somar só os ramos.
Citemos três frases palíndromas, bem curiosas, de origem portuguesa: Roma me tem amor. Atai a gaiola saloia gaiata. O romano acata amores a damas amadas e Roma ataca o namoro.
Esta última (bastante artificial) é considerada como uma das maiores frases palíndromas do nosso idioma. A segunda (pelo número de letras) seria a seguinte: Socorram-me! Subi no ônibus em Marrocos!
Com incrível paciência, construíram os palindromistas recados e até cartões de visitas palíndromos. Eis um exemplo: Ari é vil. Oliveira.
Esse aviso, ou recado, lido de trás para frente, seria: Ari é vil. Oliveira.
Agora, um estranho cartão, em francês, com endereço de um cavalheiro chamado Mack e, do qual a profissão, aliás, bem pouco recomendável, aparece indicada em baixo do nome: Rue Loir, B. Mack Cambrioleur. Tradução: Rua do Rato, B. Mack Arrombador.
Esse cartão de visitas é palíndromo. Pode ser lido de trás para frente ou de frente para trás.
Assinalam os palindromistas frases palíndromas em outros idiomas. Em espanhol: Dabale arroz a la zorra el abad (Dava arros à raposa o abade). Em italiano podemos ler: Ai lati d’Italia (Aos lados da Itália). No idioma de Shakespeare, será fácil assinalar muitas palavras palíndromas. Citemos as seguintes: tot (criancinha), madam (senhora), pop (estalo), deified (divinizado) etc.
Há, também, construídas pelos palindromistas, as frases palíndromas: Madam I’m Adam! (Senhora, eu sou Adão!). Was it a rat I saw? Able was I ere I saw Elba.
Em latim: In girum imus nocte et consuminur igni (Damos a volta à noite e somos consumidos pelo fogo).
O filólogo Leite de Vasconcelos, no V volume de seus eruditos opúsculos, cita duas frases palíndromas que, segundo a lenda, foram compostas pelo demônio. Eis a primeira: Signa te signa te, me tangis et angis. E a segunda: Roma tibi subito, motibus ibit amor.
Dois ou três séculos, antes de Cristo, os romanos já conheciam frases e expressões palíndromas. Assim, a frase latina que se acha num manuscrito do século XVII, da Biblioteca Nacional de Lisboa: Sator arepo tenet opera rotas, é palíndroma. Pode ser lida (letra a letra), da direta para a esquerda, sendo a palindromia perfeita.
Para essa frase, de acordo com o prof. Mansur Guerios, há várias interpretações: “O agricultor cuida da lavoura e eu passeio de carro”, ou ainda: “Sator, o pastor, tem suas obras encaminhadas”.
Em seu Dicionário, oferece Artur Resende uma interpretação curiosa: Sator (o agricultor) tenet opera (cuida da lavoura) a(d) repo rotas (e eu passeio de carro).
Com as letras da famora legenda latina podemos formar uma espécia de quadrado mágico com 25 elementos:
S A T O R A R E P O T E N E T O P E R A R O T A S Nesse quadrado, denominado Quadro Mágico, as palavras podem ser lidas de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda para direita e da direita para a esquerda. A palindromia é sempre perfeita.
Essa singular inscrição foi encontrada pelo arqueólogo francês, prof. Franz Cumont, por volta do ano de 1933, na Ásia Menor, entre ruinas que deviam remontar ao século III.
Mais tarde, em 1936, o pesquisador italiano Matteo della Corte encontrou uma segunda cópia do Quadro Mágico em Pompéia. De acordo com as investigações feitas nessa época (1936), a legenda pompeiana é seguramente anterior ao ano 79 da era cristã.
As duas linhas médias do Quadro Mágico, na opinião do ocultista francês Georges Barbarin, formam uma cruz, que tem no centro a letra N e, nas proximidades, a letra T, que também simboliza a cruz. Será possível, portanto, estabelecer uma relação entra o Quadro Mágico e o Cristianismo na sua luta terrível contra o Paganismo.
Oferece Georges Barbarin, dentro de suas nebulosas teoras, uma tradução para a frase de Sator. Essa tradução, em francês, seria: Le semeur guide avec soin les roues. Que, em nosso idioma, poderíamos dizer: O semeador guia com cuidado as rodas. Fórmula que está muito afastada da verdade e que é repudiada pelos latinistas.
Há, ainda, em relação ao Quadro Mágico, de Arepo, outra observação bem estranha a fazer. Aplicando-se ao Quadro, a partir de uma certa letra, a conhecida regra do movimento do cavalo (no jogo de xadrez), obtemos várias outras frases mágicas suscetíveis de serem interpretadas pelos estudiosos do ocultismo.
Citemos, para orientar o leitor, um exemplo bem simples. Partimos da letra P, de Arepo, na segunda linha. Dessa letra P passamos, por um movimento do cavalo, para a letra A, de Sator (primeira linha); dessa letra passamos para a letra T, de Tenet na terceira linha; dessa passamos para a letra E de Opera, quarta linha. Dessa letra passamos para a letra R, de Rotas (quinta linha). Com os movimentos que acabamos de indicar, obtemos a palavra PATER.
Outras letras, do Quadro, darão facilmente Noster e teríamos dessa maneira PATER NOSTER, expressão que é obtida do Quadro Mágico,
Insiste Barbarin em afirmar que as palavras do Quadro Mágico são puramente simbólicas. Para cada uma delas, segundo os ensinamentos do ocultismo, será fácil estabelecer uma interpretação especial, a saber:
- AREPO
- o Mundo, a Humanidade;
- SATOR
- o Criador, Deus;
- OPERA
- Cuidado, Trabalho;
- ROTAS
- Rotação, trajetória;
- TENET
- Suster, manter.
Uma vez fixadas essas interpretações, que nos parecem um tanto arbitrárias, teríamos pra a famosa legenda: Deus, Criador, mantem com cuidado o Mundo em sua órbita.
É essa uma tradução interessante, bastante ortodoxa do ponto de vista cristão, mas que não atende, porém, às normas dos latinistas e nem às exigências dos matemáticos.
E o problema permanece insolúvel, afirmando alguns que permanecerá ainda assim, por vários séculos.
